
Apresenta

Há séculos, a Amazônia desperta o interesse daqueles que procuram compreender sua escala, sua diversidade e seus mistérios. Naturalistas, cientistas, artistas, viajantes e exploradores atravessaram seus rios e florestas produzindo mapas, imagens e relatos, com o desejo de conhecer uma região que alimentou o imaginário do mundo, mas também despertou interesses sobre suas riquezas e seus recursos.
Roberto Burle Marx também desejava conhecê-la. Sua relação com a flora brasileira vinha de décadas de pesquisa e de uma convicção que transformaria o paisagismo no país: nossos jardins poderiam nascer da extraordinária diversidade de nossas próprias plantas.
Em setembro de 1983, aos 74 anos, Burle Marx partiu do Rio de Janeiro para a maior expedição botânica de sua trajetória. Ao seu lado, uma equipe de 14 participantes, entre arquitetos paisagistas, fotógrafos, botânicos, pesquisadores, estudantes e colaboradores. Durante 52 dias, atravessaram diferentes paisagens do Brasil até alcançar a região amazônica, passando por lugares como Porto Velho, Manaus, Boa Vista, Caracaraí e Belém.
O objetivo era concreto: observar, identificar e coletar plantas, ampliando o repertório de espécies brasileiras que Roberto estudava, cultivava e incorporava aos seus jardins. Mas a viagem revelou muito mais. Ao se deparar com a floresta em sua dimensão real, encontrou também as marcas de sua destruição. A exuberância que o fascinava convivia com queimadas, desmatamento e profundas transformações da paisagem.
Esta exposição te convida, por meio de fotografias, filmes, documentos, plantas, desenhos, objetos e registros científicos, acompanhar a viagem e, ao mesmo tempo, conhecer mais de Roberto Burle Marx: o artista, o paisagista, o pesquisador, o colecionador e o homem profundamente interessado pela natureza.
Essa trajetória nos conduz também ao Sítio Roberto Burle Marx, no Rio de Janeiro, seu espaço de vida, criação, experimentação e pesquisa. Ali, muitas das espécies coletadas em suas viagens foram estudadas, aclimatadas e cultivadas, formando uma das mais importantes coleções de plantas tropicais e subtropicais do mundo. A integração excepcional entre paisagem, botânica, arte, arquitetura e os princípios paisagísticos desenvolvidos por Burle Marx tornou o Sítio reconhecido Patrimônio Mundial pela UNESCO.
Não poderia haver lugar mais significativo para a estreia nacional desta exposição do que Belém. É na Amazônia, no Centro Cultural Banco da Amazônia, criado por uma instituição historicamente dedicada ao desenvolvimento da região, que essa viagem iniciada há mais de quatro décadas encontra novamente a floresta.
Por isso, mais do que contar sobre uma expedição, a proposta é uma experiência de conexão com a flora brasileira. Que esta viagem desperte novos olhares, e que cada visitante saia daqui levando consigo um pouco dessa descoberta.
Expedições, colecionismo e o Sítio Santo Antônio da Bica: o laboratório paisagístico de Roberto Burle Marx
As expedições botânicas realizadas por Roberto Burle Marx alcançaram as mais diversas regiões fitogeográficas brasileiras e inserem-se no conjunto de iniciativas voltadas à produção de conhecimentos sobre a natureza que, desde as expedições dos séculos passados, vinham catalogando e descrevendo a gigantesca flora tropical brasileira. Imbuído desse espírito expedicionário dos grandes naturalistas do passado, Burle Marx buscava conhecer as plantas em seu habitat natural para, então, coletá-las e aclimatá-las no Sítio Santo Antônio da Bica, atual Sítio Roberto Burle Marx, localizado no Rio de Janeiro. O Sítio constituiu seu laboratório paisagístico, espaço onde cultivou sua rica coleção botânica e realizou inúmeros experimentos que resultaram no desenvolvimento do jardim tropical moderno, transformando profundamente a maneira de se fazer jardins no século XX.
Durante suas expedições, Burle Marx testemunhou a destruição provocada pela abertura de estradas, pela expansão da ocupação humana e por empreendimentos extrativistas vegetais e minerários. Com isso, compreendeu a necessidade de defender as florestas tropicais, tornando-se uma voz pioneira na luta ambientalista. A partir de sua atividade contínua de coleta e cultivo, seu Sítio constituiu-se em um importante espaço de proteção ex situ, uma vez que, entre as cerca de 3.500 espécies que compõem sua coleção, encontram-se plantas ainda não descritas pela ciência ou cujos habitats naturais desapareceram.
O Sítio foi o espaço onde Burle Marx desenvolveu ao máximo sua vertente de colecionador, tornando-se um discurso visual sobre suas ideias acerca da modernidade, da arte, da natureza e do papel dos jardins na vida urbana. Dessa forma, o Sítio apresenta uma unidade discursiva tal que se torna impossível dissociar a coleção botânica das demais coleções artísticas e científicas reunidas pelo artista. Nesse aspecto, destacam-se obras de mestres notáveis da cultura popular, como Francisco Biquiba (Mestre Guarany), Cícero Simplício do Nascimento (Mestre Cizin), Vicentina Julião, Geralda Batista dos Santos, Nuca de Tracunhaém, Fátima Batista de Caraí, Miguel dos Santos, Juvência Costa Alecrim, entre outros; ilustrações botânicas de Margaret Mee; gravuras de Le Corbusier; pinturas de Leo Putz e Volpi; além de significativos conjuntos de arte indígena, arte pré-colombiana, imaginária religiosa católica, pinturas cusquenhas, cerâmicas do Vale do Jequitinhonha e uma interessante coleção malacológica composta por cerca de 250 itens. Quando somamos esse conjunto de objetos aos mais de 3.500 itens de sua coleção botânica, toma-se consciência de que Burle Marx, além de ter sido o maior paisagista do século XX, foi também um dos maiores colecionadores brasileiros de sua geração.
O intuito de manter a integridade de seu Sítio foi a principal motivação de Roberto Burle Marx ao doar a propriedade com suas coleções ao Iphan, em 1985, uma vez que não deixou herdeiros que pudessem dar continuidade ao seu trabalho. Atualmente, o Sítio Roberto Burle Marx destaca-se entre os bens culturais preservados como patrimônio brasileiro, encontrando-se tombado em sua integridade nas esferas federal, estadual e municipal e inscrito, desde 2019, na Lista do Patrimônio Mundial da Unesco.
Claudia Storino – Diretora do Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx
Rafael Zamorano Bezerra – Chefe da Divisão Técnica do Centro Cultural Sítio Roberto Burle Marx










